O que é o videodeglutograma?
O videodeglutograma — também chamado de videofluoroscopia da deglutição — é um exame de imagem em movimento que filma o ato de engolir por raios-X. O paciente ingere alimentos misturados a contraste de bário enquanto o aparelho registra o trajeto do bolo alimentar da boca até o esôfago, quadro a quadro.
É o exame que transforma uma queixa subjetiva — “engasgo quando bebo água”, “sinto que a comida para na garganta” — em informação objetiva sobre qual etapa da deglutição está falhando e o que precisa ser corrigido.
Para que serve: disfagia e aspiração silenciosa
A dificuldade para engolir tem nome clínico: disfagia. Quando o problema está na boca e na faringe, chama-se disfagia orofaríngea, e o risco maior não é o desconforto — é o alimento entrar na via aérea em vez de seguir para o esôfago. Essa entrada de conteúdo abaixo das pregas vocais é a aspiração, causa frequente de pneumonia de repetição.
O ponto que justifica o exame é a discrepância entre o que o paciente sente e o que de fato acontece. A revisão sistemática de Martino e colaboradores, publicada na revista Stroke em 2005, reuniu 24 estudos e encontrou disfagia em 37% a 55% dos pacientes após acidente vascular cerebral quando a avaliação era clínica, à beira do leito, contra 64% a 78% quando a mesma população era avaliada por videofluoroscopia. A diferença é o que a observação clínica não alcança.
Parte disso é a aspiração silenciosa: o alimento entra na via aérea sem provocar tosse, pigarro ou qualquer sinal externo. Segundo revisão publicada na Revista da Associação Médica Brasileira, ela ocorre em 15% a 39% dos pacientes com AVC subagudo e em 2% a 25% dos casos agudos, e a avaliação clínica isolada pode deixar de detectar aspiração em até 40% das vezes. Sem imagem, o engasgo que nunca aconteceu na frente do médico continua invisível.
Quando o videodeglutograma é indicado?
A indicação parte da consulta, não do sintoma isolado. Os quadros que mais frequentemente levam ao exame:
- Engasgos frequentes com líquidos, sólidos ou com a própria saliva
- Tosse ou voz molhada durante ou logo após as refeições — sinal clássico de que algo alcançou a laringe
- Pneumonias de repetição sem causa respiratória definida
- Sequela de AVC, especialmente na fase de reintrodução da dieta por via oral
- Doenças neurodegenerativas — Parkinson, esclerose lateral amiotrófica, demências
- Pós-operatório de cirurgias de cabeça e pescoço ou após radioterapia na região
- Perda de peso e recusa alimentar sem explicação, principalmente em idosos
- Crianças com dificuldade alimentar persistente, engasgos nas mamadas ou infecções respiratórias de repetição
Em idosos, o exame ganha peso porque a prevalência é alta e mal estimada pelos testes de triagem. Uma revisão integrativa publicada na CoDAS em 2021 encontrou frequência de disfagia orofaríngea entre 5,4% e 83,7% em idosos institucionalizados — uma variação que diz mais sobre o método usado para investigar do que sobre as populações estudadas.
Como o exame é feito, passo a passo
O videodeglutograma é realizado em sala de radiologia, com fluoroscópio, e conduzido em equipe: o registro da imagem é acompanhado da avaliação funcional da deglutição, e o otorrinolaringologista integra o resultado ao exame da laringe e à história clínica.
- Posicionamento: o paciente fica sentado ou em pé, de perfil em relação ao aparelho. Quem não consegue se manter sentado é avaliado em cadeira adaptada.
- Preparo do contraste: o bário é misturado a alimentos de consistências diferentes — líquido fino, líquido espessado, purê e sólido, conforme o caso.
- Deglutições registradas: cada consistência é oferecida em pequenos volumes, com a filmagem acompanhando o trajeto em tempo real.
- Incidências: primeiro o perfil lateral, que mostra o percurso e a proteção da via aérea; depois, quando necessário, a incidência frontal, que revela assimetrias entre os dois lados da faringe.
- Teste de manobras: se aparece penetração ou aspiração, testam-se ali mesmo ajustes de postura, volume e consistência para verificar o que torna a deglutição segura.
- Análise: a gravação é revista quadro a quadro. O tempo de exposição à radiação é curto, mas o vídeo permite reexame quantas vezes for preciso.
O passo 5 costuma ser o mais útil na prática. Ele não só mostra o problema: mostra qual ajuste resolve.
Como se preparar
- Jejum de aproximadamente 4 horas, salvo orientação diferente do serviço
- Medicações de uso contínuo mantidas, com pouca água — avise a equipe sobre o horário da última dose, principalmente em Parkinson, em que o exame idealmente ocorre no período de melhor resposta ao medicamento
- Próteses dentárias: leve e use. O exame precisa reproduzir a mastigação real
- Roupas sem metal na altura do pescoço e do tórax; retire colares
- Acompanhante, sempre que houver limitação de mobilidade ou alteração cognitiva
- Informe alergias a contraste e cirurgias prévias de cabeça, pescoço ou esôfago
- Gestação: comunique ou suspeita antes do exame, sem exceção
Videodeglutograma, videoendoscopia da deglutição ou avaliação clínica?
Os três métodos respondem perguntas diferentes e não competem entre si.
| Método | Como é feito | Melhor para | Limitação |
|---|---|---|---|
| Avaliação clínica da deglutição | Observação direta da alimentação, sem imagem | Triagem inicial, acompanhamento evolutivo, definir se cabe exame de imagem | Não enxerga a via aérea — pode deixar passar aspiração silenciosa |
| Videodeglutograma (videofluoroscopia) | Raios-X em movimento, com contraste de bário | Ver as fases oral, faríngea e o início da esofágica; confirmar aspiração e testar manobras | Usa radiação ionizante; exige sala de fluoroscopia e transporte do paciente |
| Videoendoscopia da deglutição (FEES) | Óptica flexível pelo nariz, alimento com corante | Beira do leito, reavaliações frequentes, avaliar secreções e mobilidade laríngea | Não mostra a fase oral e tem um instante de “apagão” durante o engolir |
Na prática, a videoendoscopia é frequentemente o primeiro passo, por ser feita em consultório e repetível quantas vezes for necessário. O videodeglutograma entra quando a dúvida é sobre a fase oral, sobre o tempo exato do disparo da deglutição ou quando é preciso testar de forma controlada qual ajuste torna a alimentação segura.
O que o resultado mostra
O laudo descreve onde a deglutição falha e com que gravidade:
- Fase oral: preparo do bolo alimentar, escape prematuro para a faringe, resíduo na boca
- Disparo da deglutição: atraso entre a chegada do alimento à faringe e o início do reflexo
- Proteção da via aérea: se houve penetração (o material chega à laringe, mas fica acima das pregas vocais) ou aspiração (passa abaixo delas)
- Resíduos faríngeos: sobras em valécula e seios piriformes depois de engolir, que podem ser aspiradas na deglutição seguinte
- Transição faringoesofágica: abertura do esfíncter esofágico superior
Para padronizar a gravidade, usa-se a Escala de Penetração e Aspiração (PAS), descrita por Rosenbek e colaboradores na revista Dysphagia em 1996. São 8 níveis: 1 significa deglutição sem invasão da via aérea, de 2 a 5 há penetração e de 6 a 8 há aspiração — sendo o 8 a aspiração sem qualquer resposta de tosse, ou seja, silenciosa. É essa escala que permite comparar um exame com outro e medir se a reabilitação está funcionando.
Na consulta, o que mais vejo é o paciente que já mudou a própria dieta sozinho: parou de tomar água pura, passou a triturar tudo, começou a comer separado da família. Quando a imagem mostra exatamente qual consistência é segura e qual não é, quase sempre dá para devolver parte do que ele tinha abandonado — com critério, não por tentativa e erro.
O que muda depois do exame
O resultado só vale pelo que ele permite decidir. Na maior parte dos casos, a conduta se organiza em quatro frentes:
- Ajuste de consistência: liberar o que é seguro e espessar ou suspender o que não é. Líquido fino é o que mais aspira e costuma ser o primeiro alvo, mas restringir tudo por precaução leva a desidratação e perda de peso — daí a importância de saber exatamente onde está o limite.
- Postura e manobras: mudanças simples, como flexão do queixo, rotação da cabeça para o lado comprometido ou deglutição em dois tempos, resolvem uma parte considerável dos casos. O exame mostra qual delas funciona naquele paciente.
- Reabilitação da deglutição: exercícios dirigidos ao que a imagem apontou — força de língua, elevação laríngea, coordenação entre respirar e engolir.
- Reavaliação: em quadros neurológicos em evolução, o exame é repetido para acompanhar a recuperação e liberar consistências à medida que a segurança retorna. A escala PAS serve exatamente para essa comparação.
Nos casos em que a via oral segue insegura mesmo com todos os ajustes, a discussão passa a ser sobre via alternativa de alimentação — uma decisão que envolve o paciente, a família e a equipe assistente, e que fica muito mais clara com a imagem em mãos.
Riscos e contraindicações
O exame é seguro e bem tolerado. Os pontos de atenção são poucos e conhecidos:
- Radiação ionizante: a dose é baixa e o tempo de fluoroscopia é limitado ao mínimo necessário, mas existe — por isso o exame tem indicação clínica, não é de rotina
- Gestação: contraindicado, salvo situação excepcional com avaliação de risco-benefício
- Alergia ou intolerância ao contraste: rara com bário, mas precisa ser informada antes
- Aspiração do próprio contraste: possível durante o exame, e justamente por isso ele é feito com volumes pequenos e sob supervisão, com interrupção imediata quando indicado
- Obstrução ou perfuração do trato digestivo suspeitada: contraindica o bário; nesses casos usa-se contraste alternativo ou outro método
Videodeglutograma em Maringá
Engasgo repetido não é parte normal do envelhecimento nem consequência inevitável de uma doença neurológica. É sintoma, tem causa identificável e tem conduta.
O caminho começa na consulta com o otorrinolaringologista: história clínica, exame da laringe e definição de qual método de avaliação o caso exige. A partir daí, o videodeglutograma é realizado em ambiente de radiologia e o resultado volta integrado à avaliação clínica — com orientação de consistências, manobras e acompanhamento, e não apenas um laudo.
Veja como funciona a avaliação funcional da deglutição em Maringá, com os sinais de alerta, as indicações por faixa etária e o passo a passo do agendamento. Se a dúvida for mais ampla, conheça o atendimento em otorrinolaringologia, a otorrinolaringologia infantil — via de entrada frequente nos casos de engasgo em crianças — ou a formação e a trajetória do Dr. Ângelo.
Conteúdo elaborado pelo Dr. Ângelo César D’urso Panerari, otorrinolaringologista em Maringá (CRM-PR 21.270 | RQE 13.092). Este artigo tem caráter informativo e não substitui consulta médica presencial.